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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Contra a Unicidade Sindical - foi há 35 anos!


Acho extraordinário o que vai para aí nos blogues e nos jornais sobre uma manifestação feminista há 35 anos no Parque Eduardo VII, onde sem pingo de originalidade se terão queimado alguns soutiens. Não dei por ela. É que precisamente há 35 anos, naquele 13 de Janeiro, no Parque Eduardo VII, havia "electricidade no ar ", como constatava Francisco Salgado Zenha e por isso começou o melhor discurso da sua vida em tom contido: "eu vou-vos falar com toda a serenidade".

Dois dias antes a Intersindical promovera uma manifestação avassaladora a celebrar a vitória da unicidade sindical - ficava proibida a existência de mais de um sindicato por profissão e/ou por sector de actividade, o qual inevitavelmente seria controlado pelo PCP, como acabava de acontecer em todos os plenários da Cintura Industrial de Lisboa, de braço no ar, em que as posições contrárias nem aos microfones conseguiam chegar.

E, naquela mesma noite, três porta-vozes autorizados do MFA, liderados por Vasco Lourenço, tinham comparecido na RTP, a ameaçar o PS, que a unicidade tinha sido aprovada pelo MFA, e não ia voltar atrás, combatê-la era fazer o jogo da reacção. Manuel Alegre, que aderira ao PS um mês antes na Reitoria, ele não é fundador, fez o segundo melhor discurso da noite: "O PS não tem medo de sobrolhos carregados, sejam eles civis ou militares".

Parece-vos banal hoje? Pois foi histórico. Nos dias anteriores o DN, então dirigido por um velho republicano (José Ribeiro dos Santos) tinha consentido em publicar uma troca de artigos sobtre a questão sindical, em que se digladiaram Carlos Carvalhas, secretário de Estado do Trabalho, que na altura dizia não ser do PCP (!), e Salgado Zenha, então ministro da Justiça !

A publicação desses artigos de Zenha no DN fora uma lança em África - os jornalistas, os tipógrafos, e demais "classe operária", foram apanhados desprevenidos. Não tinham tido tempo para correr com o director "socialista", fizeram-no depois.

Como foi uma lança em África a convocação daquela manifestação do PS ─ a primeira contra uma decisão política do MFA, com respaldo de milhares de plenários sindicais, contra a chamada União POVO - MFA, que compreendia PCP/MDP/FSP/MES. É/foi uma data fundamental na marcha para a democracia, numa altura em que nem as eleições para a Constituinte estavam garantidas.

Esteva na sede do PS naquele dia 11 de Janeiro, quando apareceu Lopes Cardoso a dizer: "Vamos convocar uma manifestação contra a unicidade, é o momento de sabermos o que valemos como Partido". Anda naquele dia 11, na sede da FAUL, interinamente dirigida pelo António Guterres (a FSP de Manuel Serra, vencida, por pouco, no Congresso da Reitoria um mês antes acabava de abandonar o PS com enorme estardalhaço mediático).

Fizeram-se os cartazes no próprio dia e foi mesmo possível arranjar uma tipografia que os imprimisse. E numa única noite, o PS mobilizou-se para cobrir todas as ruas de Lisboa: "Contra a Unicidade Sindical, Pela Unidade e Liberdade dos Trabalhadores".

No dia 13, no Pavilhão dos Desportos, o único apoio exterior ao PS era o dos anarquistas que distribuíam "A Batalha". Pois, mesmo assim, naquela noite histórica, tiveram que se retirar todas as cadeiras do Pavilhão para caberem mais pessoas. Nem assim, não cabia uma agulha lá dentro, transpirava-se à farta, arranjaram altifalantes para que o comício pudesse ser ouvido cá fora. Como um dos organizadores, achei que me devia sacrificar: saí para dar lugar a outros.

Havia ajuntamento cá fora, nunca tinha visto tanta gente num comício nocturno, a meio de uma semana de trabalho. Claro que apareceram meia dúzia de provocadores: "aquilo eram os fascistas a levantar cabelo", "aquilo não podia ser o PS que não tinha tanta gente", "O PS aliava-se à reacção, era uma traição aos trabalhadores", "Fascismo, nunca mais!". Aguentámos a pé firme.

Naquele dia o PS começou a marcar as suas diferenças da restante esquerda. Como é que alguns só se lembram de uma manifestação atípica de meia dúzia de feministas, que naquele dia de "electricidade no ar" queimaram uns soutiens? Tiveram uns contratempos?! O PS também, por toda a cidade!

O 13 de Janeiro de 1975 é uma data que o PS e todos os democratas deviam celebrar.


quinta-feira, 9 de julho de 2009

Memórias de um tempo salazarento (1)

O António Horta Pinto, do Ponte Europa, um dos meus blogs de referência, encontrou no seu Dossier da Pide, uma carta de 1965 em que ele e outros amigos de Coimbra enviavam à secção "Factos e Documentos", da Seara Nova, extractos de um discurso de um deputado salazarista na Assembleia Nacional, que louvava a militância dos comunistas - ó sacrilégio! ó santa ingenuidade! - para apelar a um maior empenho cívico dos adeptos da situação.

Vejam sobre o assunto os textos do ahp e do Carlos Esperança, que valem a pena! Por mim digo e repito que era da parte daquele deputado da União Nacional, partido único, um sacrilégio e uma ingenuidade, porque, lembro-me perfeitamente, naquele tempo até o vocábulo "comunista" estava banido dos jornais, a não ser para noticiar, e discretamente, as condenações que se sucediam nos tribunais plenários. E lembro-me perfeitamente da emoção e do júbilo com que recebíamos em todos os números da Seara Nova a rubrica "Factos e Documentos", alimentada essencialmente por citações, sem o mínimo comentário, de extractos de discursos das mais altas personalidades do Regime, em especial de Américo Tomás.

Os coronéis da Censura tinham dificuldades em censurar uma citação exacta e não comentada de um dignitário oficial em funções. E a malta, que não via televisão, que não lia o Diário de Notícias, juntava-se na Cantina para ler, em voz alta, as citações da Seara Nova. As gargalhadas deviam ouvir-se no gabinete do Reitor Paulo Cunha, no outro edifício, a 300 metros dali. Os discursos do Tomás eram assim como as reflexões do Diácono Remédios, na fabulosa criação do Herman José.

Sim, é verdade, como eles interceptavam a correspondência! E com que despudor! Lembro-me que em 63 ou 64, na Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, estávamos obrigados a votar uma alteração dos estatutos, para a qual a entidade homologadora, o Ministro, exigia a comparência de um número altíssimo de sócios na Assembleia Geral. Era uma tarefa quase impossível sobretudo porque havia muitos sócios que eram alunos voluntários, trabalhavam, e só de longe a longe passavam pela Faculdade.

Mobilizámo-nos, tentámos telefonar a toda a gente, mas muitos sócios nem tinham telefone nas casas em que viviam, se é que ainda viviam nos endereços que tínhamos nas fichas. Decidimos, ainda assim, enviar cartas, fechadas, em envelopes normais e sem remetente, para dificultar eventuais apreensões. Repito que estávamos apenas a convocar uma assembleia legal para legalmente alterar um artigo ou dois dos estatutos, nada de particularmente subversivo.

Como última precaução - foi ideia minha e supunha que brilhante! - dividimos as cartas a enviar entre nós e fomos espalhá-las por todos os marcos do correio, da Cidade Universitária ao Saldanha, convencidos que com essa dispersão conseguíamos que ao menos algumas chegariam aos destinatários.

Pois não chegaram. Verificámos mais tarde que nenhum dos sócios, a que foram enviadas as convocatórias, as tinha recebido. Os estupores dos pides, nos CTT, devem ter adivinhado a jogada: detectaram, apreenderam e destruíram cartas legalíssimas, entre uma Associação e os seus sócios, a avisar do interesse e necessidade de virem a uma assembleia geral.

Mas lixaram-se. É que, apesar de todas as sabotagens, conseguimos reunir no dia e hora aprazados o número necessário de sócios. As alterações foram discutidas e votadas, sem problemas de maior, que os estudantes de Direito afectos ao Regime eram poucos, embora especialmente agressivos, tinham as costas quentes.

Iam de matraca para as reuniões de estudantes, que a RIA convocava. Mais tarde furaram greves, alinharam com os gorilas que foram recrutados, ouviram os bons conselhosdos padrinhos que tinham no Governo. Mas hoje andam por aí armados em líderes e comentadores de sucesso, a gabar-se de um impoluto passado de democratas que não tiveram.