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sábado, 27 de março de 2010

A malta abrupta não gostou? Ainda bem

Pelo menos não tem aquele ar boçal, seboso, luzidio, asfixiado, claustrofóbico, doentio, agressivo, prejudicado, carroceiro, do outro candidato. Pedro Passos Coelho fez um discurso civilizado, fluente, a prometer luta franca, sem ódios, mas também sem cumplicidades. Oxalá!

Penso que fez bem, que pode ter conquistado algum interesse entre gente razoável, foi uma inovação ver um homem tranquilo nesta nossa política abespinhada. A prova é que aquela rapaziada do Público, a malta abrupta ─ das escutas a Belém, do Portugal profundo, do justicialismo desembestado, dos julgamentos na praça pública, à Paulo Portas, um pé no Ministério Público e os dois nas manchetes dos jornais ─, essa malta, não gostou.

Estou a ouvir a RTPN e já passei pela SIC Notícias: a canalha da agitação e propaganda ficou frustradíssima com Passos Coelho. É um bom sinal.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Cavaco é um ditador? Belmiro explica-se

Em que sentido é que Belmiro de Azevedo considera que Cavaco Silva um ditador? Neste:
Usei a palavra com o significado figurado que ela também tem, como sinónimo de "autoritário" ou "prepotente", mais precisamente como adjectivo com que se qualifica quem exerce o poder de forma implacável ou desapiedada, sem revelar pelas outras pessoas sentimentos ou consideração. Recordo que o termo aparece a propósito da demissão compulsiva de quatro ministros, que entendo ter sido feita sem a cortesia que os visados mereciam.
Ah bom?! Assim ficamos mais tranquilos. Ou não?

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Como limpar um País de lés-a-lés



Foi a Sofia Baumberg que me chamou a atenção para esta iniciativa da sociedade civil na Estónia. Que está a inspirar em Portugal esta rapaziada.

Acrescenta a Sofia e estou de acordo com ela, que é uma iniciativa que
merece o apoio e a colaboração de todos. Basta inscreverem-se no site e descobrir a forma como podem participar e colaborar activamente. Dá algum trabalho, muito mais do que ficar sentado a criticar tudo e todos. Mas o esforço vale a recompensa de vivermos num país mais limpo.


Oxalá! Vou fazer isso também. E depois conto-vos o que houver para contar.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Caminha resignado ao matadouro

Às vezes a manada, seguindo a passos conformados em direção ao abate, súbito entra em explosão a partir da reação atordoada de apenas uma rês. E irrompem todas as reses em direção ao nada, arrastando tudo pela frente e chifrando-se entre si. A frase é de Emir Larangeira, um escritor brasileiro, que descobri há pouco. Muito interessante, digo-vos eu.

Pois, meus amigos, esta é uma parábola que assenta como uma luva ao Governo de Portugal, desde que Cavaco Silva promulgou o adiamento sine die do Código Contributivo, com argumentos dignos do deputado da UDP Américo Duarte, "os ricos que paguem a crise", ou "o Governo que se desenrasque e arranje dinheiro para me pagar as minhas múltiplas e chorudas reformas".

O mais estranho de tudo é a mansidão (ia dizer a reacção de corno manso mas contive-me) com que o Governo e o PS reagiram à promulgação pressurosa de Cavaco daquela Lei Travão, que lhe corta os meios de fazer o que se propunha e o condena a vegetar por aí mais uns tempos, cercado e impotente. É assim como no poema de António Miranda Fernandes, que o Emir Larangeira, também ele, me revelou:

Saía a boiama confusa e cadenciada
Ruminando e olhando para o chão...
E de sinos dispersos, as badaladas,
Iam tocando a massa em procissão.
Em balada profética de triste agouro...
Com pegadas de sofrimento no sertão,
Caminhando resignada ao matadouro
Mugindo! Entoando, estranha oração.

O Governo caminha resignado ao matadouro, senhores ouvintes, a Oposição Unida jamais será vencida, e com esta evocação fechamos o ano de 2009. Mas atenção, o poema continua, o Primeiro Ministro vai regressar das suas férias na neve, amanhã é um novo dia, até mesmo um novo ano.
Voltarei ao assunto.

domingo, 8 de novembro de 2009

Não dou nada por este Governo

Estava à vista com a formação do Governo, como notou Miguel Sousa Tavares a semana passada no Expresso: este Governo fica a perder por comparação com o anterior, foram sacrificados praticamente todos os ministros que não tiveram dúvidas em fazer frente aos lóbies, que eles, sim, põem e dispõem na governação.

O "agachamento" do Executivo já tinha começado com a promoção de Ana Jorge, a ministra da Gripe C, a Gripe da Comunicação, que ela promove há meses com as suas aparições dia sim dia não na Televisão e é tudo o que faz. Sócrates promoveu-a a cabeça de lista por Coimbra. E foi em Coimbra, não sei se repararam, que o PS teve o seu pior resultado: perdeu metade, 3 em 6, dos seus deputados. Como "prémio" continua ministra. Imposta pela Ordem dos Médicos e por Manuel Alegre, que estranha aliança!

O "agachamento" perante os lóbies já começou a vir ao de cima na Educação, onde a ministra Alçada, contradizendo o Primeiro-Ministro durante o próprio debate do programa de Governo, não se coibiu de disparar, e disparatar, contra a equipa em que é suposto jogar. A Ministra Alçada é em minha opinião um erro de "casting", não tarda a enterrar, de vez, o pouco que resta das marcas de carácter, coragem e determinação que deram duas vitórias a José Sócrates.

Este Governo é fraco, como se viu, o Presidente está cada vez mais abespinhado, agressivo e dissimulado, a tentar cavar a sepultura do Governo e a insistir nas suas teses económicas "únicas e exclusivas". Pode ser que receba um Nobel da Economia, mas depois de empurrar o País para um buraco de que não sairemos tão cedo.

A guerrilha anterior às eleições está a regressar a todo o vapor. Ouviram as diatribes de João Palma contra o PGR e as reacções exacerbadas de António Martins contra "o seu" (nosso é que não é!) Conselho Superior da Magistratura? Dá medo! Hoje em Portugal qualquer cidadão sabe que não basta ser sério, cumpridor, amigo de todos, generoso e exigente, consigo próprio, tolerante, justo. Se cair nas "malhas da Justiça" pode ser destruído num ápice! Que a Justiça é uma lotaria, senão é que... está entregue aos bichos!

Quando os sindicalistas fazem a lei, como acontece na Justiça (e se prepara na Educação, numa aliança histórica da extrema esquerda com a extrema direita parlamentares, com o aval do extremo Presidente que temos) o que os cidadãos podem fazer é mesmo... meter-se em casa, que a rua ocupa-a quem as TVs querem, e ter medo.

Talvez seja isso a tal "asfixia democrática" que como na fábula do lobo alguns começaram por atribuir aos outros.

De qualquer maneira, em Janeiro, se lá chegarmos com vida, "chumba" o Orçamento e, embora isso não seja automático, cai o Governo, três meses são suficientes para desgastar este governo flagelado. Sobretudo se, como lhe recomendou Francisco Assis, entre a espada e a parede preferir a espada, que sempre é uma morte mais digna e a preferida de Sócrates, ouvi-o dizer, na longa marcha da co-incineração.

Portas e Louçã já começaram a queixar-se desta potencial tentação do Governo para resistir de cabeça alta às manigâncias que ambos lhe preparam. Se preferir morrer como touro na arena, em vez de ficar bandarilhado, a sofrer, por tempo indeterminado, é certo e sabido que... a culpa será do touro... O que povo quer é espectáculo.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Em nome de Saramago: que mal fez a Deus o pobre do jumento?

O Sr. Mário David, eurodeputado do PSD e vice-presidente do grupo parlamentar do PPE, adorava que José Saramago renunciasse à nacionalidade portuguesa, de resto não pode fazer nada: não é dono do direito de ser português, não pode banir ninguém, felizmente para nós, a Inquisição acabou, Saramago não é António José da Silva, embora também seja escritor, não pode ser mandado queimar no Terreiro do Paço, que está em obras, não dá para se organizar lá um auto-de-fé.

Tem de ter paciência, Mário David, sabemos que é uma pessoa importante no PSD e no Parlamento Europeu, mas diga o que disser o Sr. Václav Klaus da Checoslováquia, o Parlamento Europeu em Portugal não manda nada, e o PSD de momento também não. Nem sequer pode anular, ou impedir, um qualquer prémio lhe seja, ou tenha sido, atribuído.

Não estou preocupado com o Sr. Mário David, e Saramago também não, ao que parece. Mas já fiquei absolutamente consternado com o que disse um tal Morujão, porta-voz da Conferência Episcopal, católica apostólica romana: Que Saramago revelava ignorância e a ignorância é muito atrevida.

É que essa expressão sobre a ignorância ser muito atrevida era, ipsis verbis, o que dizia o Padre José Augusto, padre da minha terra há quase 50 anos, quando alguém na paróquia murmurava, em voz muita baixa, alguma objecção remota à virtude de Salazar ou à santidade da guerra colonial, em defesa da civilização cristã e ocidental.

Nessa altura o Padre José Augusto frequentava o café da terra. Ria a bandeiras despregadas com as pilhérias do deputado da União Nacional João Amaral, a verberar aqueles que na Oposição lembravam os evangelhos ou os ensinamentos de João XXIII. "Com papas e bolos se apanham os tolos", dizia Amaral e repetia o Padre, canoro e belicoso, fulminando com o olhar quem parecia duvidar. E era vê-lo no púlpito, citando as pastorais do senhor Bispo de Lamego, as encíclicas dos bispos e do Papa, todos os mandamentos da Santa Madre Igreja. Todos os escritos da Igreja abençoavam Salazar, só os hereges é que não!

─ Sr abade, mas a Bíblia (o Novo Testamento) não diz que...
─ Cuidado, está a ser atrevido. E ignorante. "Sempre a ignorância é muito atrevida". Nem lhe respondo. Não vou gastar cera com ruim defunto.

Fim de papo. A Igreja portuguesa, reaccionária, salazarista, era assim há cinquenta anos lá na minha aldeia, na voz do Padre José Augusto. Pelos jeitos continua na mesma, na voz do porta-voz oficial da Conferência Episcopal. Eles é que sabem, os outros têm o direito de ouvir, a Santa Madre Igreja, e de se calar. Aquele senhor vice-presidente do PPE está pelos estes ajustes, sacrossantos.

Andei num semanário, estudei a Bíblia, a parte que me deixaram ler, com a leitura que dela faziam os frades capuchinhos, salvo erro. Só dezenas de anos depois, ao ler uma entrevista do Padre Felicidade Alves, soube do conteúdo do Livro de Josué, onde o tal Deus mau, vingativo, cruel, manda que os Exércitos de Israel massacrem populações inteiras, homens, mulheres e crianças, até os animais, incluindo o jumento.

O jumento, senhores, que mal tinha feito a Deus o pobre do jumento?


segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Ponderar é preciso

José Saramago segundo o i
A Bíblia? "Um desastre", um livro repleto de "maus conselhos, incestos e matanças". E a Igreja Católica? "O sonho da Igreja é transformar todos em eunucos".
Luis Filipe Menezes segundo o i
Em toda a Europa há eleições, há um partido que ganha, não tem maioria absoluta, e depois apresenta um governo ou de coligação ou com um acordo parlamentar prévio para uma legislatura. Só em Portugal é que há esta bizarria em que alguém que ganha sozinho considera que os que estão ao lado são infrequentáveis e os que estão ao lado têm como única ambição destruir aqueles que ganharam eleições. Nós temos uma tendência para a asneira, para a tontice.

domingo, 18 de outubro de 2009

O Marcelo é um chico-esperto

Repararam na maneira como ele chamou estúpidos a todos os líderes da Oposição, menos a Portas, que tem medo dele, por terem falado com José Sócrates? Fácil. Bastou alterar um pouco os factos, dizer que Sócrates propôs a todos que se coligassem com ele, aos que são pelas nacionalizações e aos que são contra, grande aldrabão, esse Sócrates! E a Manuela, e o Jerónimo, e o Francisco, e em certa medida também o Paulo, "caíram na esparrela, a falta que eu faço à frente do PSD, para denunciar estas manigâncias!".

Pequeno pormenor: Sócrates, que se saiba, pelo menos ninguém o disse, não propôs coligações a ninguém". Perguntou a cada um se estava disponível a iniciar um diálogo, sem condições prévias, com vista a assegurar uma solução governativa estável para o País. Iniciar o diálogo, hem? Sem condições prévias? Género o que é que cada um acha importante que o PS transija? E o que é que acha pôr de seu? Com vista à estabilidade do País?

Logo alguns responderam que a estabilidade não interessava nada, pelo contrário. Deixando à vista que... a luta continua, o Sócrates para a rua, política é espectáculo e estamos aqui para isso.
E foram francos. Marcelo, não: para se fazer passar por inteligente, o único, o bom, o da Bayer, chamou burro a toda a gente.

Marcelo sempre foi assim, quando está sozinho em cena, sem contraditório, como naquelas pretensas entrevistas, na RTP. Lembro-me dele na Constituinte, foi discreto e reservado, absolutamente insignificante. Foi ministro dos Assuntos Parlamentares de Balsemão, passava a vida a convidar os jornalistas para o seu gabinete, fugia a sete pés de dizer o que pensava no plenário, podiam cair-lhe em cima e ele tem horror de apanhar.

Marcelo, para brilhar na sentença, já idealizada antes do julgamento, ajeita os factos provados às suas conveniências prévias. Conheci juízes assim. Brilhantes. E tenebrosos. Porque... "ajeitam os factos", e dos factos provados só excepcionalmente cabe recurso. É por isso que foge do contraditório como o diabo da cruz. Deus nos livre de nos calhar um juiz assim!

Com Marcelo não se pode falar a sério. Só pode ser desmascarado se se usar o mesmo método, simplista, sem se incomodar com a realidade dos factos, caricatural, a rir. O único que chegou para ele foi Ricardo Araújo Pereira, com aquelas palermices gloriosas, no debate sobre o aborto. Porque se recusou a falar a sério com ele. Vendo bem, até lhe respondeu na mesma moeda, que aquilo que Marcelo dizia não tinha ponta por onde se lhe pegasse.
Então como agora, Marcelo não se pode levar a sério, é um chico-esperto e não passa disso.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Para quem a "ética republicana" é uma batata

Depois do fiasco da "operação escutas" (e ninguém esqueça que continua em Belém ao serviço indeterminado do Presidente ─ será nos «serviços secretos? ─ o "mandatário", o homem que encomendou a coisa e disse estar ali "a pedido do Presidente") até dá comichões ouvir um Presidente, que se inventou um pretexto para não aparecer nos Paços do Concelho no dia da República, falar em "ética republicana". A ideia que ele tem da honra da República e da honra dos republicanos que fizeram o 5 de Outubro!

A ideia que ele tem? Só se for esta, que o Inimigo Público, mais uma vez, descobre e publica:

Cavaco Silva celebra altura em que Afonso Costa não vigiava Teófilo Braga
05 5e Outubro Por Vítor Elias
Cavaco Silva presidiu às comemorações dos 99 anos da implantação da República, salientando que este é o momento dos portugueses se unirem em torno dos ideais republicanos

“Nesta data, eu pergunto-me a mim mesmo: será que o Afonso Costa ouviria o que o presidente Teófilo Braga dizia no seu gabinete? E, se o fizesse, usaria um copo de água encostado à parede?”, afirmou Cavaco Silva, o homem que mais se interroga a si próprio desde o filósofo grego Sócrates. “E antes da implantação da República, o João Franco espiaria o palácio do rei D. Carlos? Eu pergunto-me: porque é que a galinha atravessa a estrada???”, concluiu o Presidente da República.
A ideia que Cavaco Silva tem da ética republicana está toda e por inteiro nesta evocação.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Quando um Chefe do Estado apostou em renegados

Aconteceu na Grécia, em 1965, era Primeiro-Ministro Geórgios Papandréou, o avô, precisamente, do Geórgios Papandréou, que ontem ganhou as eleições na Grécia à frente do PASOK. Papandréou, Senior, fora um resistente à ocupação nazi, tinha sido preso e exilado, liderara o primeiro governo do pós-guerra, em 1945, após a ocupação da Grécia pelos fascistas italianos e pelos nazis alemães, em 1965 era pela terceira vez Primeiro-Ministro, depois de ter ganho as eleições gerais de 1963 ao conservador Constantino Caramanlis, tio do PM da Nova Democracia ontem derrotado.

O que aconteceu, em 1965, foi um pretenso escândalo, até hoje por esclarecer: a descoberta pela imprensa de direita de uma organização clandestina de jovens oficiais de esquerda que estariam dispostos a bater-se contra um eventual golpe de direita e aos quais aparecia ligado o nome de Andréas Papandréou, ministro e filho do então PM, que viria a ser PM, ele próprio, vinte anos mais tarde. Na Grécia todos os vinte anos há um Papandréou Primeiro-Ministro, de esquerda? Que alterna com um Caramánlis, Primeiro-Ministro conservador? Assim parece.

Em 1965, na Grécia, por azar, a possibilidade de um golpe de Estado militar da direita era pública e notória, como mais tarde contará o filme Z, de Costa-Gavras ─ acabavam de assassinar em Salónica o deputado Lambrakis, num complot que meteu milícias de extrema-direita, com a cumplicidade dos altos comandos da polícia e, ao que se diz, até hoje, do próprio Caramanlis, vencido nas eleições de 1963. Por isso, a existência de uma organização clandestina de oficiais do Exército, anti-golpistas, "ligados" ao filho do PM, enervou as chefias militares. Exigiu-se a demissão do ministro da Defesa. Que Papandréou aceitou.

Mas quando Geórgios Papandréou quis ser ele próprio o ministro da Defesa, acumulando com o lugar de PM, o jovem Rei Constantino, há um ano em funções, resolveu dar um ar da sua graça e opôs-se frontalmente. O impasse conduziu à demissão de Papandréou. E à tentativa de formação de Governo com personagens menores do partido do líder demitido (chamava-se então "União do Centro").

Cinco governos se sucederam, com "renegados", "apóstatas", do partido que acabava de ser escorraçado do Poder sem que o Rei tivesse tido a coragem de dissolver o Parlamento e convocar novas eleições. Assim como D. Carlos em 1906-1908, com a ditadura de João Franco, quando mandou fechar S. Bento e se esqueceu de convocar novas eleições.

Cinco Governos chumbados, todos, no Parlamento, que iam prolongando a agitação nas ruas e os confrontos. Foi o que ficou conhecido na Grécia como "a apostasia de 1965". E criou as condições para o golpe de Estado dos coronéis em 1967. O Reizinho que soltara contra Papandréou todos os demónios, de repente calou-se. Mas um ano depois fugiu para Roma e proclamou a sua oposição aos coronéis. Os quais de imediato extinguiram a Monarquia.

Quando em 74 os coronéis foram corridos e voltou a democracia, o Rei Constantino também quis reocupar o trono. Demasiado tarde. "Roma não paga a traidores", o Povo grego, em referendo, desta vez, votou o fim da Monarquia. E o primeiro Presidente da República eleito foi o juiz que em 1964 tenha instruído o caso Lambrakis e inculpado pelo assassinato alguns altos quadros da Polícia e do Exército. Como se conta no Z, um filme a ver e rever, com Jean Louis Trintignant, no papel do juiz, Yves Montand, como Lambrakis. Um dos dez melhores que vi na minha vida.

Constantino, como D. Carlos, os reis, e alguns chefes de Estado que pensam como reis, não se conformam com o voto popular. A criação de cisões nos partidos existentes é uma tentação frequente. Para alguns chefes de Estado que pensam como reis.

Digo eu neste 5 de Outubro, dia da República, proclamada há 99 anos da varanda dos Paços do Concelho de Lisboa. Onde todos os Presidentes da República, democraticamente eleitos, faziam questão em ir num dia assim. Até hoje.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

E ela: “porque os contei – um, dois"

Cavaco confuso

September 30th, 2009

Estava eu sentadinho na minha casa do Algarve, já com as pantufinhas calçadas e uma mantinha sobre os joelhos, a estudar os decretos-lei que o malvado do Sócrates me obrigou a levar para férias, quando apareceu a minha Maria, a dizer:

- Estão lá fora duas pessoas importantes do PS a dizer que tu estás a ajudar o PSD a elaborar o programa do Governo.

- E como sabes tu que elas são duas pessoas importantes do PS? – perguntei.

E ela: “porque os contei – um, dois -, porque são altos e porque trazem rosas ao peito.

Percebi automaticamente que o PS me queria manipular, encostando-me ao PSD, para disso tirar dividendos eleitorais.

Regressei a correr a Lisboa e, mal entrei no meu gabinete da Presidência da República achei que alguém me tinha mexido no computador porque o naperon que a Maria tinha posto por cima da impressora, por causa do pó, estava um bocadinho desviado.

Liguei o computador e fui ver os mails e achei-os um pouco vulneráveis. De tal maneira, que hoje mesmo liguei para a Zon e já cá veio um brasileiro que me configurou o meu programa de mails, de modo a só receber mails de pessoas decentes.

Por isso, portugueses, sou forçado – repito: sou forçado – a tornar pública a minha indignação e repetir que ninguém está autorizado a falar em meu nome, nem mesmo a minha mulher.

Se algum dia ela vier a público dizer que eu estou desmemoriado ou confuso, ou baralhado, ou confuso outra vez, podem ter a certeza que falará em seu nome pessoal porque, em meu nome, ninguém fala, a não ser o chefe da Casa Civil e o chefe da Casa Militar e, talvez, eu próprio, embora não tenha bem a certeza disso.

Boa noite e agora vou para dentro, pensar como raio é que vou arranjar uma maneira de não indigitar Sócrates como primeiro-ministro

(in o coiso, via coices do Jumento que levanta a ponta do véu)

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Não tarda aí o 18 do Brumário

Vi há bocado o debate na SIC Notícias, com todos os partidos, sobre a declaração à comunicação social do Presidente da República sobre o caso das escutas. Todos concordaram que é gravíssimo haver falhas de segurança dos mails presidenciais. O que isso tem a ver com as escutas denunciadas ao Público em Agosto "por fonte autorizada da Presidência da República"? Não tem nem precisa de ter. Sócrates fica a cozer em lume brando. Sob suspeita, sempre ─ e não é preciso mais nada.

Lá para finais do mês, Cavaco diz ao PS que o País não pode permitir-se um PM sob suspeita, que ele próprio alimentou e promoveu ─ mas que é que isso importa? O PS que indique outro candidato a formar Governo, Sócrates, ele não aceita. O PS, se tem vergonha na cara, recusa.

Aí o PR faz um discurso vicioso, como o de ontem, e anuncia ao País que o PS não quer formar Governo, e de qualquer maneira não tem direito a isso, que a soma do PSD e do CDS é maior do que o PS, sem contar com o PCP e o BE, que também não o querem.

E logo a seguir indigita Manuela Ferreira Leite para formar assim a modos que um Governo de maioria presidencial... Bonapartismo? "Só se foi por ter ocorrido por alturas do 18 do Brumário" ─ dirão, fazendo-se desentendidos, os homens do Presidente

Claro que o programa de um tal Governo não passa na Assembleia. Por isso não seja a dúvida: Manuela mantém-se em Governo de gestão, descobre escutas por todo o lado, o caso Freeport avança a todo o vapor, até Março do próximo ano, até às Presidenciais, não há condições para substituir Manuela Ferreira Leite e o seu governo presidencial.

Estou a imaginar? Pois não sou o único. Já viram bem o que o Presidente disse?

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Obviamente demita-se

Em minha humilde opinião, foi uma intervenção paranóica, a do Presidente da República, hoje, como paranóica foi a da “fonte autorizada da Presidência” ao Público, em Agosto último, que revelou “as escutas”, mesmo se não foi por escrito, como paranóica tinha sido a “démarche” de Fernando Lima junto do Público “a pedido do Presidente da República”, em Abril de 2008, que lhe encomendou uma “investigação” sobre a presença na Madeira de um colaborador do Primeiro Ministro durante uma visita oficial do Presidente da República, alegadamente para o espiar.

Continua tudo na mesma se não pior: as suspeições agravam-se, ninguém pode fazer de conta, é o próprio PR que vem agora fazer suas as manobras dos seus colaboradores. E fá-lo, pasmai, ó gentes, sem apresentar um único facto relevante.

Os mails do Presidente têm falhas de segurança?! O que é que tem a ver o cu com as calças? O que estava em causa era o mail do Público, de Alvarez para Tolentino, relatando uma encomenda de notícia, que era uma espionagem de um colaborador do Primeiro Ministro, que se teria infiltrado na comitiva do Presidente em visita oficial à Madeira.

E nesse ponto o Presidente insiste na perfídia ao dizer que não sabe o que esse senhor ouviu, ele não tem nada a esconder. Calma no Brasil: está a dizer que o tal senhor ouviu alguma coisa que não devia? Ou que não podia espiar uma visita oficial do Presidente porque não há nada a espiar?

Então porque mandou Fernando Lima (ou não mandou?) falar com o Público, contar-lhe uma história sinistra e entregar-lhe um dossier sobre aquela pessoa? O colaborador do PM integrou legalmente a comitiva, sentou-se onde o mandaram, participou nos eventos para que foi convidado? Sim ou não?

O Presidente continua a desconfiar e a alimentar o clima de suspeições, isto é de doidos. Onde estão os factos em que alicerça a sua desconfiança? Que o Presidente da República não tinha conhecimento daquele mail do Público? Pois não teria, a menos que daquele mail tenha sido dado conhecimento a Fernando Lima, e este, fazendo jus à sua qualidade de leal colaborador do Presidente, que o era e continua a ser, tenha corrido a mostrá-lo a Cavaco Silva: “Veja isto, senhor Presidente, os dados estão lançados, com a ajuda do Público vamos fazer deles gato sapato”.

E a “fonte autorizada da Presidência da República” que em Agosto revelou ao Público “as escutas”, mesmo se não o fez por escrito e em papel timbrado do Presidente? Que dois membros do PS tinham levantado a hipóteses de alguns homens do Presidente estarem a trabalhar no Programa do PSD e pediram esclarecimentos. Que é que isso tem? Pois se o próprio Presidente diz que no passado colaboradores de outros Presidentes desenvolveram actividades nos respectivos partidos... E que é que isso prova? Que há/havia escutas em Belém, como disse a tal “fonte autorizada? Mais uma vez: o que é que o cu tem a ver com as calças?

Se estivéssemos no Senado norte-americano, perante este Watergate, sem ponta por onde se lhe pegue, todos estes pormenores não deixariam de ser investigados e tirar-se-iam as ilações do caso, a saber:

  • Existe alguma razão por remota que seja para o Presidente continuar a levantar suspeições de que está a ser vigiado pelo Governo?
  • E, se não há, o Presidente goza neste momento de boa saúde mental? Está em condições de continuar no exercício das suas funções?

É que já por duas vezes na nossa História tivemos Chefes de Estado que tiveram de ser retirados de funções. Aconteceu com D. Afonso VI e com D. Maria I. Eram reis, com mandatos vitalícios, e nem isso impediu que os processos se fizessem.

Reclamo e requeiro que o Parlamento investigue. Que, eventualmente, havendo motivos para tal o Supremo Tribunal de Justiça instrua o competente processo. E que nos termos constitucionais se demita, obviamente, quem tiver de ser demitido. Ou o Governo. Ou o Presidente.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Este é o primeiro dia do resto das nossas vidas

O Povo decidiu, está decidido. O PS ganhou e os outros perderam. Assim quis o Povo soberano, para que conste:
PS: 36,6%;
PSD: 29,1%;
CDS/PP: 10,5%
BE: 9,9%;
CDU: 7,9%
Ainda falta contar essa coisa ridícula (só existe em Portugal!) que são os deputados pelos emigrantes, uma espécie de consolação para o facto de os emigrantes serem impedidos de votar, como devia ser seu direito, nas suas terras de origem. Isto é que a composição do Parlamento português na próxima legislatura deverá ser a seguinte:
PS: 97-98;
PSD: 80-81;
CDS/PP: 21;
BE: 16;
PCP: 15.
Curiosidades e consequências lógicas (depois falaremos das outras):

Primeira: A vitória do PS, por si, não serve para nada. Porque não pode governar sozinho e seria bem imprudente que o tentasse, depois da agitação permanente, as sabotagens e os bloqueios, a que está sujeito. Mesmo que o seu programa passasse na Assembleia. Os poderes que se lhe opuseram ─ no Parlamento, na Presidência, nos tribunais, nas corporações, nos sindicatos, nas ruas, nas televisões ─ ganharam um novo fôlego, como se viu nos discursos "de vitória", do Bloco, do PCP, do CDS e da maioria dos comentadores encartados.

Segunda: Ninguém se quer coligar com o PS e foi o que expressamente proclamaram o PSD, o CDS, o BE e a CDU. Todos fizeram sua a célebre máxima daquele anarquista espanhol: Hay gobierno? Soy contra. E como são todos homens e mulheres honrados vão manter o que disseram. Em resumo: não me admiraria nada que como na Bélgica daqui por oito ou nove meses ainda estivéssemos à espera da formação de um novo governo.

Terceira. É a vontade do Povo, que é soberano, imensamente sábio, infinitamente bom. Está tudo bem quando acaba bem, ou, como dizia o Candide, se o Povo votou assim tinha as suas razões e o futuro provará como está tudo bem no melhor dos mundos. "Há Paz em Varsóvia!" durante algum tempo (quanto?) pelo menos.

A prazo, eu bem avisei, como sabem os poucos que me lêem, vem aí... "o estoiro da boiada". Na URSS, em 1917, ocorreu num 7 de Novembro, depois de eleições que tinham dado a vitória a partidos moderados. Em Portugal, em 1910, foi num 5 de Outubro, depois de eleições que o Partido Republicano tinha perdido em todo o País excepto em Lisboa. Suponho que nas condições actuais, estando nós na Europa (contra a vontade de alguns!) "o estoiro" final ainda vai demorar algum tempo. O mais tardar, e bruscamente, no Verão, quente, quente, como nós, portugueses, gostamos tanto!

Até lá, gozemos da vida: hoje vou bicicletar no Paredão se os esbirros de Capucho me deixarem. E como está um sol bom, isso ninguém nos tira, talvez dê mesmo um mergulho no Tamariz. Carpe diem! Louvado seja o Povo nosso Senhor! E Deus me livre de dizer mal do soberano.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Declaração de voto: o melhor que anda aí...

21 de Abril de 2002. Em França, Lionel Jospin, o Primeiro Ministro da Esquerda Plural (PS+PCF+Radicais+ Verdes, geralmente considerado um bom governo), era o candidato mais bem colocado para bater o Presidente em exercício Jacques Chirac, com quem fora obrigado a "cohabitar" penosamente nos últimos anos. Todas as sondagens indicavam o desgaste do líder da direita e a previsível vitória de Jospin na segunda volta, quinze dias depois, a 5 de Maio.

Ao princípio da noite, na contagem dos votos, confirma-se a baixa popularidade de Chirac que não chega aos 20% dos votos validamente expressos: 19,88% é o score do líder da Direita. Mas, surpresa das surpresas, Jospin não é segundo, perde para o candidato da extrema-direita por 0,68%: Le Pen atinge os 16, 86%, Jospin não passa dos 16,18%.

A extrema direita obtinha o seu melhor resultado desde os anos 30; a extrema esquerda conseguia o seu melhor resultado de sempre:
  • Arlette Laguiller, trostsquista, Lutte Ouvrière, fazia 5,72%;
  • Jean Pierre Chevenement, ex-ministro de Jospin, juntava 5,33%,
  • Noel Mamère, dos Verdes, também no Governo, congregava 5,25%;
  • Olivier Besancenot, trotsquista, da mesma tendência que Louçã, subia aos 4,25%;
  • Robert Hue, do Partido Comunista Francês, obtinha 3,45%;
  • Christiane Taubira, do Partido Radical, faz 2,32%.
Isto é, se um só destes candidatos, ou todos em conjunto, tivesse menos 0,70% e Jospin os mesmos 0,70% a mais, a esquerda passava à segunda volta e provavelmente ganhava a Chirac. Não passou. A esquerda perdeu e nunca mais voltou à esfera do Poder. Foi humilhada. Pelaextrema direita. Muitos se declararam em estado de choque.

Porquê ? Como se apurou em seguida, muitos votantes do PS, incluindo militantes na campanha de Jospin, daqueles que andaram a distribuir panfletos e a colar cartazes, deram por garantido o resultado para que apontavam as sondagens, a ida de Jospin à segunda volta, e divertiram-se a votar Besancenot, um carteiro, jovem bonito, bem falante, ou Chevenement, o apóstolo dos movimentos de cidadãos, ou Taubira, uma simpática militante negra moderada, ou Mamère, um antigo jornalista televisivo muito popular, oráculo dos Verdes. E ao votar nos alternativos, deram cabo da única alternativa que a Esquerda tinha.

No dia 27 de Setembro, se Sócrates, porque lhe fugiram os votos, tiver um a menos do que Manuela Ferreira Leite, que é politicamente feia, mesquinha, má pessoa (um Pacheco Pereira de saias! um nojo de política!) temos a direita a governar sem partilha, no Governo e na Presidência, por muitos e muitos anos. Uma democracia, à imagem e semelhança da Madeira de Alberto João Jardim, com Cavaco como guardião.

Então é que vão ver o que a outra senhora queria dizer com a "asfixia democrática", eles bem avisaram. Em França, a direita ganhou em 2002, num bambúrrio de sorte, e nunca mais perdeu, mas mantiveram-se as práticas democráticas. Será assim em Portugal com uma aliança Jardim, Manuela e Cavaco? Não tenho a certeza. Você tem?

E se o PS ganhar mas não tiver maioria vamos ter manifestações permanentes, o cerco a S. Bento, ocupações em série, c'est la lutte finale!, os extremistas andam eufóricos, com as vitórias populistas na América Latina, com a o seu triunfo nas europeias, ninguém os pára, a "revolução permanente" tem uma ocasião única, em Portugal, novamente, como em 75, escapámos por uma unha negra. Pois não ouviram o que disse Miguel Portas sobre a superioridade da "forma de luta" das ocupações em relação à forma de luta, apenas isso, dos votos?

Nada a fazer? Anda toda a gente cega com o charme discreto dos nossos "radicais pequeno-burgueses de fachada socialista", como disse o Alvarinho, e na altura também se referia à minha pessoa? Vem aí um PREC que nem em 74-75?

Pois com o meu voto, não. Eu voto Sócrates. Que tem carácter. Que como Primeiro Ministro foi, e deverá continuar a ser, o melhor que anda aí.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Dize tu direi eu

A queda do homem-sombra de Cavaco


Em Novembro de 2003 Fernando Lima, que fora durante dez anos assessor de Cavaco e dois anos assessor do ministro Martins da Cruz, foi contemplado com o cargo de director do Diário de Notícias. A nomeação foi mal recebida pela redacção do DN, dado que o seu percurso como assessor de imprensa de governos do PSD podia pôr em causa a imagem de independência do jornal. A confirmar esses receios, seria pouco depois acusado internamente do «impedimento da publicação de notícias e de artigos de opinião que, supostamente, poriam em causa a imagem de figuras do PSD», lê-se hoje no insuspeito Público. Desenha-se o retrato de um Lima perito em asfixia, pois...
Copiei do nikadas, onde pode ver a continuação desta prosa, que vale bem a pena. E já agora veja esta no Câmara Corporativa:

Que diferença há entre Nixon e Cavaco?




É verdade que Nixon também começou por despedir os assessores na lógica do "eu não sabia de nada"... mas, como aqui se escreve, “ao menos Nixon teve a coragem de anunciar a demissão e de prestar uma homenagem pessoal aos seus assessores. Fernando Lima foi atirado pela sanita sem direito a uma palavra e nem sequer houve um comunicado, foi uma fonte oficiosa que deu a dica à comunicação social.”






segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Como se faz um título feio: a proeza da Exame

Hoje todo o dia em vários sites a notícia foi que "Sócrates é o pior Primeiro Ministro..." Cartaz do PSD? Palavra de ordem corporativa ou sindical? Boca de campanha de um seu adversário político? Mais uma "encomenda de Belém", a última da era Fernando Lima?

Desengane-se. Se fosse alguma coisa dessas, quem lhe pegaria? Praticamente ninguém, se exceptuarmos José Manuel Fernandes e os seus acólitos, tirando Manuela Moura Guedes e o seu comando guerreiro. Não. Trata-se dos resultados de uma "sondagem", muito a propósito encomendada, e oportunamente divulgada, em cima das eleições, no mais aceso da campanha, pela revista Exame. Grande furo, sim senhor!

No mais aceso da campanha, 27% dos votantes detestam José Sócrates, dizem que ele é "o pior Primeiro-Ministro"? Só 27 %? E os outros 73%? Como explica um politólogo no corpo da notícia, que não no título, um resultado destes é normalíssimo, inevitável, lógico, incontornável. A revista Exame, ou alguém por ela, ao encomendar a sondagem, tinha a certeza de que, mais ponto menos ponto, o resultado só podia dar um título feio para o Primeiro-Ministro.

Atenção: "o pior Primeiro-Ministro desde 1985". Porquê "desde 1985"? Porque a democracia começou em 1985? Porque não "desde 1980", que é número redondo? Ou "desde 1975", que é o ano da entrada em vigor da Constituição, do I Governo de Soares, o do "PS sozinho"?

Ingénuos. Porque nesse ano de 1985 Cavaco Silva iniciou funções depois de três anos de austeridade, acordos com o FMI, com as contas externas em ordem, e sobretudo, sobretudo, com um jackpot de fundos comunitários para gastar como lhe aprouvesse? Como era previsível, Cavaco sai da sondagem como "o mais querido" dos Primeiros-Ministros. Daí 1985.

Então e Sá Carneiro não rivaliza com Cavaco Silva como o "melhor PM" no coração dos leitores da Exame? Então e Pinto Balsemão não rivaliza com José Sócrates na disputa do lugar de "pior PM"? Ficam de fora. Assim como Nobre da Costa. Assim como Mário Soares. Assim como Lurdes Pintasilgo. Que todos tiveram adeptos.

"Poi$, poi$, J. Pimenta": é tudo uma questão de dinheiros. A Exame, que é propriedade do militante nº 1 do PSD, não podia correr o risco de promover uma "sondagem" susceptível de desconsiderar o patrão. Ia tudo raso.

Nem podia lembrar aos fervorosos de Cavaco que Sá Carneiro, ele sim, governou em condições menos favoráveis, soube congregar esforços, resistir a um Presidente desafecto, enfrentar e levar de vencida uma campanha negra negra.

Lembrar Sá Carneiro era fazer o jogo de Sócrates. Esconder Balsemão era a melhor maneira de concentrar sobre Sócrates todos os furores dos homens de negócios, de todos os turiferários de Rendeiro e de Oliveira e Costa, que suportam a Exame.

Assim não se correram riscos. Uma sondagem assim só podia dar aquele título, espécie de boca foleira, panfletário e enganador, era mais do que garantido. Não admira o sucesso que teve.

Auto-estradas solares


Nos Estados Unidos, desde que Obama, à semelhança de Sócrates, decidiu investir nas energias renováveis surgem todos os dias projectos extraordinários. O último é utilizar as auto-estradas, o piso das auto-estradas, para colocar painéis solares, produtores de energia eléctrica barata e não poluente. Já existe uma empresa, a Solar Roadways, uma equipa, subsídio público inicial de 100 mil dólares, o que é raro na América, e resultados prometidos até Fevereiro de 2010.

Pretende-se descobrir a maneira de produzir energia de maneira descentralizada, segura, inteligente, em painéis que se auto-regeneram. Pode ser um ovo de Colombo para os problemas de aprovisionamento de energia, carregamento de baterias, dos automóveis eléctricos, cuja produção em série já começou.

As auto-estradas solares são apenas um dos projectos em curso. Há uma data deles já em fase de execução como se pode constatar aqui, no site da Envision Solar. Veja e divirta-se. O que faz falta é optimismo, espírito de iniciativa, vontade de avançar, "o sonho comanda a vida". Gente desconfiada, maledicente, mesquinha, invejosa, parada no tempo - é que não nos leva a lado nenhum. Salazar foi a prova disso.

domingo, 20 de setembro de 2009

Vem aí o papão do Bloco - diz Ferreira Leite


O PSD já não ganha estas eleições e começou a interiorizar a derrota. Por isso e só por isso é que passou a tentar meter medo com uma eventual coligação de esquerda, em consequência dos resultados que se esperam para daqui a uma semana. Não é o País que tem medo, é o PSD que está aflito, com a hipóteses de o Bloco levar as suas "propostas fracturantes" para o Governo.

O País, aparentemente, não tem medo do Bloco, nem das tais propostas fracturantes, desde que no Governo esteja, também, o único partido que foi capaz de erguer-se contra o PREC e que o pode fazer de novo quando e se for preciso. Se o País tivesse medo do Bloco, e/ou do PCP, concentraria os seus votos em Sócrates, como os espanhóis fizeram em Zapatero, reduzindo a extrema esquerda a 5 deputados em 350: 3 para a Esquerra Republicana (espécie de Bloco de Esquerda), 1 para o PCE, outro para os Verdes. Pelo contrário, vamos ter a extrema da extrema esquerda mais numerosa do Mundo Democrático.

Eu sou dos que preferiam de longe a maturidade democrática de um solução à europeia, o rotativismo entre a esquerda democrática e a direita democrática. Acontece que a direita portuguesa está cada vez mais perigosa, e são, aliás, de esperar nestes últimos dias mais manobras e abalos, "com epicentro" em Belém e pés enterrados no corporativismo de antanho.

E acontece também, como se comprova pelo andar das sondagens que os eleitores estão fascinados pelo vanguardismo do Bloco (um pouco como aconteceu com os eleitores da Bolívia, do Equador, da Venezuela, da Argentina ou da Nicarágua!). Vem aí um Maio de 68 eleitoral, "somos todos judeus alemães".

Somos todos pelo casamento civil dos homossexuais - repararam como em Espanha já nem a direita franquista defende que se volte atrás. Contra os paraísos fiscais - temos um na Madeira. Contra as "off-shores". Contra os prémios milionários que os banqueiros se outorgam! Contra as falências fraudulentas! Contra as negociatas chorudas com acções que não estavam no mercado, Vocês sabem do que estou a falar?!

É disto que o PSD tem medo, e não dos dois ou três ministérios que num governo de esquerda haviam de caber ao Professor Louçã, ao Doutor Semedo ou ao Prof. Fernando Rosas. O PSD tem medo que, com o apoio do Bloco e do PCP, o PS deixe de ser obrigado a recuar a cada medida, e que finalmente escolha "avançar", tendo força e apoios para isso, fazendo das tripas coração, contra os vetos de Cavaco e a guerra santa que a direita a bem dizer já lançou.

O PSD fala do papão de um governo de esquerda que aí vem porque sabe que vai perder. E a prova de que o PSD sabe que vai perder foi a aparição de Marcelo Rebelo de Sousa, em defesa da sua dama, agora oficial. O PSD sabe que não tem hipóteses mesmo que "o genial Marcelo" crie meia dúzia de factos políticos para o que resta de campanha.

Por mais tempo de antena que lhe dêem, Marcelo tem pé frio, como dizem os brasileiros. Lembram-se como ele enterrou de vez a campanha do aborto? Quanto mais se agitar, ao lado da outra senhora, pior para ela! Viram a sua prestação em Coimbra? Irrelevante! A mim fez-me lembrar o outro Marcelo, Caetano, quando se precipitou para a clínica onde Salazar estava em coma, depois de cair da cadeira.

Marcelo apareceu brilhando aos militantes, a dizer-lhes "comparem-nos, vejam as diferenças".Onde ela é deprimente, eu sou estimulante. Onde ela é cinzenta, eu sou um Rei-Sol, um manda-chuva, num ápice passo das televisões à direcção do Partido, vou e volto as vezes que me apetecer.

A aparição de Marcelo na campanha é o segundo sinal de que o PSD já perdeu. O primeiro é o apelo ao medo contra o papão de uma coligação PS+PCP+BE. E haverá outra solução de Governo depois do que a D. Manuela disse nos debates?