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terça-feira, 27 de abril de 2010

Greves como na Grécia, até lhes ganhamos 5-3 !

Greves como na Grécia, greves nos transportes, que são as que mais doem e mais alarido provocam, greves na função pública, que são as mais fáceis, as de menos riscos para quem as faz, e as mais badaladas, que é só o que importa.

Greves com manifestações, transmitidas em directo em vários canais. Greves gritadas, agitadas, anunciadas, propagandeadas, antes, durante e depois, em programas acéfalos, sem contraditório que valha, que assim se conquistam audiências e se bota abaixo o fraco Governo que insiste em aguentar.

Fraco Governo em que o Povo insistiu também, apesar do estado de guerra em que decorreram as campanhas negras de magistrados e jornalistas conluiados, em honra dos quais se promove agora uma comissão de inquérito feroz por assunto banal, um negócio privado que não se fez, que pelos vistos não interessava a ninguém a não ser aos accionistas das empresas nele envolvidas, mas contra o qual o Presidente da República apelou à mobilização geral da Nação, mobilização que continua na Assembleia, contra o PM marchar, marchar!

Quem não se lembra do que dizia Manuela Ferreira Leite, há bem pouco tempo, ela que tem as certezas absolutas que se sabe: Portugal está no caminho da Grécia. Na altura, até o seu amigo e companheiro de armas, Aníbal Cavaco Silva, terá ficado incomodado, pelo menos fez de conta, que não lhe calha mesmo nada que o Governo caia já.

Portugal está no caminho da Grécia, olá se está! Por muito que digam os analistas é óbvio que "os mercados" olham para nós e nem se incomodam a fazer contas: o que lhes salta à vista é o exemplo grego que diariamente lhes damos.

Greves gritadas, ferocidade na vida pública, uma Assembleia que ofende todos os dias "o fraco Governo" - mas não tem a coragem de o fazer cair, um Presidente dissimulado, a fazer render a usura do Governo para não prejudicar a sua reeleição -- como é que não havíamos de ser considerados o próximo alvo a abater, se politicamente estamos muito pior?

Muito pior: o novo Governo grego tem maioria na Parlamento, não tem um Presidente que lhe promova inventonas desestabilizadoras, que esteja todos os dias no terreno a marcar as distâncias.

E sobretudo a Grécia não tem como nós a extrema esquerda mais numerosa e aguerrida da União Europeia, como se vê pela comissão de inquérito, como se vê pelo domínio da rua, como está à vista nos programas de escárnio e mal-dizer que pululam nas rádios, nos jornais e nas televisões.

Como é que havemos de esperar que tenham confiança em nós, se como a Grécia temos greves a dar com um pau, magistrados que em vez de dizer a Justiça dizem mal do Governo, dois partidos comunistas dois, no Grupo das Esquerdas Unidas do Parlamento Europeu? Temos dois partidos comunistas na UE, qual o mais sectário, mas com mais representantes do que os gregos: cinco comunistas e bloquistas de extrema esquerda para as nossas cores, três comunistas e esquerdistas radicais para os gregos.

Ganhámos aos gregos 5-3, em matéria de agitação e propaganda. Governo a ser agredido e nem se pode dar ao respeito que tem a Oposição ao ataque, a agitação permanente nas ruas e nas televisões, os jornais a disparar, o Presidente à escuta, e a berrar que é escutado, como convém na estória do lobo e do cordeiro, que é todo um retrato da política portuguesa.

Esperem-lhe pela volta.


segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Quando um Chefe do Estado apostou em renegados

Aconteceu na Grécia, em 1965, era Primeiro-Ministro Geórgios Papandréou, o avô, precisamente, do Geórgios Papandréou, que ontem ganhou as eleições na Grécia à frente do PASOK. Papandréou, Senior, fora um resistente à ocupação nazi, tinha sido preso e exilado, liderara o primeiro governo do pós-guerra, em 1945, após a ocupação da Grécia pelos fascistas italianos e pelos nazis alemães, em 1965 era pela terceira vez Primeiro-Ministro, depois de ter ganho as eleições gerais de 1963 ao conservador Constantino Caramanlis, tio do PM da Nova Democracia ontem derrotado.

O que aconteceu, em 1965, foi um pretenso escândalo, até hoje por esclarecer: a descoberta pela imprensa de direita de uma organização clandestina de jovens oficiais de esquerda que estariam dispostos a bater-se contra um eventual golpe de direita e aos quais aparecia ligado o nome de Andréas Papandréou, ministro e filho do então PM, que viria a ser PM, ele próprio, vinte anos mais tarde. Na Grécia todos os vinte anos há um Papandréou Primeiro-Ministro, de esquerda? Que alterna com um Caramánlis, Primeiro-Ministro conservador? Assim parece.

Em 1965, na Grécia, por azar, a possibilidade de um golpe de Estado militar da direita era pública e notória, como mais tarde contará o filme Z, de Costa-Gavras ─ acabavam de assassinar em Salónica o deputado Lambrakis, num complot que meteu milícias de extrema-direita, com a cumplicidade dos altos comandos da polícia e, ao que se diz, até hoje, do próprio Caramanlis, vencido nas eleições de 1963. Por isso, a existência de uma organização clandestina de oficiais do Exército, anti-golpistas, "ligados" ao filho do PM, enervou as chefias militares. Exigiu-se a demissão do ministro da Defesa. Que Papandréou aceitou.

Mas quando Geórgios Papandréou quis ser ele próprio o ministro da Defesa, acumulando com o lugar de PM, o jovem Rei Constantino, há um ano em funções, resolveu dar um ar da sua graça e opôs-se frontalmente. O impasse conduziu à demissão de Papandréou. E à tentativa de formação de Governo com personagens menores do partido do líder demitido (chamava-se então "União do Centro").

Cinco governos se sucederam, com "renegados", "apóstatas", do partido que acabava de ser escorraçado do Poder sem que o Rei tivesse tido a coragem de dissolver o Parlamento e convocar novas eleições. Assim como D. Carlos em 1906-1908, com a ditadura de João Franco, quando mandou fechar S. Bento e se esqueceu de convocar novas eleições.

Cinco Governos chumbados, todos, no Parlamento, que iam prolongando a agitação nas ruas e os confrontos. Foi o que ficou conhecido na Grécia como "a apostasia de 1965". E criou as condições para o golpe de Estado dos coronéis em 1967. O Reizinho que soltara contra Papandréou todos os demónios, de repente calou-se. Mas um ano depois fugiu para Roma e proclamou a sua oposição aos coronéis. Os quais de imediato extinguiram a Monarquia.

Quando em 74 os coronéis foram corridos e voltou a democracia, o Rei Constantino também quis reocupar o trono. Demasiado tarde. "Roma não paga a traidores", o Povo grego, em referendo, desta vez, votou o fim da Monarquia. E o primeiro Presidente da República eleito foi o juiz que em 1964 tenha instruído o caso Lambrakis e inculpado pelo assassinato alguns altos quadros da Polícia e do Exército. Como se conta no Z, um filme a ver e rever, com Jean Louis Trintignant, no papel do juiz, Yves Montand, como Lambrakis. Um dos dez melhores que vi na minha vida.

Constantino, como D. Carlos, os reis, e alguns chefes de Estado que pensam como reis, não se conformam com o voto popular. A criação de cisões nos partidos existentes é uma tentação frequente. Para alguns chefes de Estado que pensam como reis.

Digo eu neste 5 de Outubro, dia da República, proclamada há 99 anos da varanda dos Paços do Concelho de Lisboa. Onde todos os Presidentes da República, democraticamente eleitos, faziam questão em ir num dia assim. Até hoje.