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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Cavaco a Rei ou os cientistas é que sabem.


Vale a pena ler a descoberta a que o Público hoje dá voz: Cientista estima que 24 de Janeiro é o dia mais deprimente do ano . Pois em verdade, em verdade vos digo: é só a primeira consequência da vitória de Cavaco, muitas outras se seguirão nos 1.769 dias que ainda faltam para o homem se ir embora.

Há 2.230.104 portugueses que não cabem em si de contentes: Cavaco que arrasa. Cavaco que domina. Cavaco que é santo e vai ser canonizado em Maio, se não me engano, ele ou alguém muito parecido com ele, que os colégios católicos estiveram em cheio na campanha e já proclamaram: Cavaco é o Salvador!

É o que diz a Imprensa em coiro (queria dizer em coro), e ainda mais no País vizinho, para quem Cavaco ganhou tanto que já é o chefe do Governo e assim há-de continuar: el pueblo portugués creyó en él para que siga al frente del Gobierno.

Os mais comedidos assinalam que Cavaco empata em votos com a abstenção. Acontece que exageram. Cavaco teve 2.230.104 votos, a abstenção 5.138.483, pôr tudo em percentagens é muito enganador. O triunfo cavaquista foi de 23,15% dos eleitores, a abstenção de 53,37%. Não, ele não é, nunca foi, e nunca vai ser o Presidente de todos os portugueses. Eu prefiro o Rei de Espanha, que é mais barato, mais civilizado, e até fala português tão bem ou melhor do que o Cavaco.

Como dizia o Almada Negreiros, se ele é português eu quero ser espanhol. Ele "para que siga al frente del Gobierno", há-de nomear Fernando Lima ministro da Informação, recolocar Dias Loureiro como ministro do Interior, promover Fantasia na pasta da Economia. O povo creyó en él, não foi. Pois, o mais tardar até fins de Março o Povo vai ter o que merece.

sábado, 31 de julho de 2010

E se a guerra dos touros levasse à independência da Catalunha...

Já aqui prestei, na senda de Orwell, a minha Homenagem à Catalunha por terem repudiado a barbárie da chamada fiesta brava e escolhido alinhar com as nações civilizadas que há muito condenam e proibem as torturas dos animais, ainda por cima como espectáculo de divertimento, seja no circo, seja nos bas-fonds dos combates de galos, de cães, de gladiadores, de leões e cristãos, como nas arenas da Roma antiga.

Aceito, e não acho nada mal, que ao fazê-lo os deputados do Parlament de Barcelona se tenham arrogado, como nota Bruno Sena Martins, uma certa "superioridade moral dos catalães" em relação ao resto dos espanhóis, que continuam hipocritamente a reivindicar as touradas como tradição honorável, quem quer vai e quem não quer fica e viva a liberdade!

Assim, designadamente, Esperanza Aguirre, líder da Comunidade de Madrid, para quem, pasme-se, seria importante que a Unesco reconhecesse "o interesse cultural" dos touradas de morte, ou para José Blanco, ministro do Fomento de Espanha, que sendo contra a proibição manifestou respeito pelo Parlament da Catalunha.

Mas o pior de todos é Mariano Rajoy que promete uma lei das Cortes a declarar o interesse cultural da tortura dos touros na arena com força obrigatória em toda a Espanha, assim fazendo da proibição um verdadeiro casus belli, como nota o El País.

Acho que fazem mal mas é lá com eles. Se persistirem nesta invasão dos bárbaros, que seria arrasar a vontade legitimamente expressa na Catalunha pelos catalães, substituindo-a pelos pontos de vista de Castela, não tenho dúvida que a Europa vai gritar ao escândalo e não deixará de mobilizar-se pelos direitos da Catalunha civilizada contra a tortura e a barbárie sobre os animais, que vigoram no resto da velha Hespanha, incluindo Portugal.

A Catalunha pode assim ganhar perante a comunidade das nações civilizadas uma espécie de direito ao divórcio, de Espanha, por maus tratos. E até pode ser que o exemplo catalão nos inspire a nós portugueses, embora haja poucas esperanças por cá no curto prazo.

Com efeito PCP e BE têm alguns dos seus feudos enterrados, como os pés na lama, no Ribatejo taurino. O CDS/PP é um partido marialva. PS e PSD não se pode contar com eles para abanar o "statu quo". Mas se a guerra dos touros levasse à independência da Catalunha... outro galo nos cantaria.


sábado, 19 de junho de 2010

Ah como é diferente a direita em Portugal!

Obrigatório não perder o suplemento que o El País consagra este sábado a José Saramago. E em especial os depoimentos in memoriam, que vão de Mariano Rajoy, líder da Oposição de direita, a José Luís Rodriguez Zapatero, Primeiro Ministro do PSOE.

Faço questão de reproduzir aqui na íntegra o artigo de Zapatero, com o título Memória del Árbol, que assim se dirige a Saramago:

Tu abuelo, nos contaste, intuyendo el final de su existencia en la Tierra, fue diciendo adiós a los amigos, a su familia, a la naturaleza, porque quería estar lúcido y presente cuando la muerte llegara. Por eso, se abrazaba a los árboles que guardaban las páginas escritas de su vida.

Me llega la triste noticia de tu muerte y te evoco, el verano pasado, en la biblioteca de tu casa de Lanzarote. Vuelves a ser el perfecto anfitrión, el hombre cortés, inteligente, generoso, al que le gusta compartir la amistad. Me honra ser tu invitado. Pilar, tu compañera, tu cómplice, parece señalar en silencio a todos y cada uno de tus personajes en ti: al Ricardo Reis que se compadece de la soledad de los poetas y ayuda a no temer la memoria, a los inventores de artefactos angélicos que quieren enseñar a los seres humanos a volar "aunque les cueste la vida", a aquel alfarero que libra a los esclavos de una nueva caverna porque se niega a aceptar ciertas cegueras que imponen desigualdad y dolor.

Tú, que has sido también todos los nombres, no terminas aquí. 2010 es ya, para siempre, el año de la muerte de José Saramago, pero tus libros forman un maravilloso bosque de dignidad. Y yo me abrazo al árbol para mantener tu memoria..

Comovente. Também Mariano Rajoy, se dá ao trabalho de escrever sobre Saramago, a quem louva a Fuerza de la Palabra, assim:

Con José Saramago desaparece un novelista enérgico, comprometido con la fuerza de la palabra. Sus libros son testimonio de ello. Intensos, arrebatados, desvelan la precisión visionaria de quien escribía desde dentro, invocando una pasión íntima que surgía de la imaginación, pero que no renunciaba a tener los pies en la tierra, palpando sus contradicciones y sus injusticias. Sé que no compartíamos el mismo horizonte político. Él creía en unos ideales que no son los míos, pero eso no impide que aprecie en su obra la convicción compartida de que la dignidad del hombre, más allá de las diferencias, siempre cuenta. Sus personajes mostraban esta forma de pensar. En ellos latía un aliento pesimista que dejaba abierta una puerta a la esperanza, a la espera de que el lector sacara sus propias conclusiones acerca de su conducta: de lo que hacía con su vida y de cómo lo hacía. El año de la muerte de Ricardo Reis, Memorial del convento o Ensayo sobre la ceguera son ejemplos de este proceder literario. Saramago fue uno de los grandes escritores del siglo XX y un gran amigo de España. El reconocimiento internacional que mereció su obra fue, también, un homenaje esperado al portugués: una lengua portentosa, bella y fértil desde sus orígenes; una lengua próxima, íntima, hermana, como el pueblo que la habla y que siente a través de ella.
Ah como é diferente a direita em Portugal! Veja-se a atitude de Cavaco Silva. Que se limita a mandar mensagem em que enaltece o mérito do Prémio Nobel, quando no seu tempo de Primeiro Ministro não o julgou digno de se candidatar a um Prémio Europeu.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Em Portugal é muito pior

Extractos de uma entrevista ao Público espanhol de Mercedes Belbel, feminista e anti-franquista nos anos 70, uma das líderes do movimento pelo direito ao divórcio, nos últimos 20 anos uma das mais esforçadas militantes a trabalhar com as vítimas da violência doméstica.

Se acusa al islam de machista. ¿Y la Iglesia?

La jerarquía católica es misógina y homófoba. Saben que se les tiene miedo pues se muestran implacables cuando se tocan sus muchos privilegios. Parece imposible pensar que sigue habiendo gente en contra del divorcio, amenazando con excomulgar a los diputados que voten a favor de la Ley del Aborto, condenando el matrimonio homosexual, escondiendo la pedofilia de un sector del clero, impidiendo que las mujeres puedan formar parte de su jerarquía, interfiriendo tanto en la vida de un Estado democrático. Aunque, para ser justas, hay que destacar que, en la Iglesia católica, hay un sector de teólogas y teólogos feministas.

¿Habrá igualdad mientras haya monarquía?

No parece que los regímenes republicanos hayan alcanzado una mayor cuota de igualdad para las mujeres sólo por ese hecho, ni que Berlusconi respete más a las mujeres que la reina Isabel II de Inglaterra. No debemos caer en simplismos.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Curiosidades da ratificação do Tratado de Lisboa (1)

Os processos de ratificação do Tratado de Lisboa são bem a medida do europeísmo dos Estados-membros. E sobretudo não me digam que os ricos, ou os grandes, são pelo Tratado de Lisboa, enquanto os pobres e os pequenos não o querem.

Grandes houve que votaram entusiasticamente o Tratado, praticamente por unanimidade, como a Itália (551 a 0, na Câmara dos Deputados, e 286 a 0, no Senado, 0 abstenções em ambas). Pois é: a Itália tem defeitos, a começar pelo seu Primeiro Ministro Berlusconi, só não é mal-agradecida.

Tem neofascistas e neocomunistas, eurocépticos e eurocomunistas, comunistas ortodoxos e comunistas convertidos à democracia burguesa, socialistas e democratas cristãos, radicais, nacionalistas, internacionalistas, separatistas e liberais. A Itália tem de tudo, só não tem caspa anti-europeia na cabeça. Agradece à Europa, sem complexos, toda a solidariedade que tem recebido dela desde o Tratado de Roma. Quer instituições renovadas e funcionais. Votou o Tratado de Lisboa sem o único voto contra.

A Itália é um grande País e o Tratado de Lisboa favorece os grandes? É o que dizem os antieuropeístas primários portugueses do nosso Bloco Comunista, mas não é verdade. Também há/houve pequenos Estados absolutamente pró-europeus e nada desconfiados, como Malta (65 a 0) e o Luxemburgo (47 a 1).

Idêntica maioria obteve o Tratado de Lisboa no Senado da Alemanha (65 a 0), onde estão representadas as 17 regiões, e onde os comunistas da antiga RDA, que obviamente se opõem à União Europeia, preferiam o Pacto de Varsóvia, ainda não conseguiram entrar.

De uma maneira geral, as votações a favor do Tratado de Lisboa foram esmagadoras ─ em Espanha (322 a 6, no Congresso, e 232 a 6, no Senado), na Roménia (387 a 1), na Estónia (91 a 1). Até mesmo na Irlanda, no segundo referendo, após longa reflexão, a semana passada: 67,1% a favor do Tratado de Lisboa, isto é mais de dois terços do sufrágio popular.

Em Portugal, o Tratado de Lisboa não mereceu mais do que uma aceitação mitigada (208 a 22), provavelmente porque a ele surgem associados os nomes de Sócrates e Barroso e porque sem a Europa teríamos sido presa fácil de todos os extremismos. Progredimos com a Europa, a Europa Connosco serviu-nos de protecção suplementar.

Os vencidos do PREC nunca hão-de perdoar. De facto, toda a extrema esquerda portuguesa, a mais numerosa e mais bem representada no parlamento nacional de toda a União Europeia (em alguma coisa havíamos de ser os primeiros!) esteve contra desde o primeiro dia: a 19 de Outubro de 2007.

Ainda não estava terminada a negociação na cimeira do Parque das Nações e todos os comunistas portugueses, os mais estalinistas tanto como os menos, já desciam à rua a clamar vingança. Obtiveram-na, em parte, dois anos depois, nas últimas eleições para o Parlamento Europeu.

Reforçaram-se nas legislativas. Têm boa imprensa. Amigos bem colocados em todas as televisões e rádios. O combate continua. Mas ou me engano muito ou os próximos tempos provarão que não vão a lado nenhum. Que não servem para nada. Nem os revolucionários portugueses nem os reaccionários polacos ou britânicos. Como veremos amanhã.