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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
O Islão mostra a sua força... em Paris.
Provocatório? Demonstração de força, pelo menos. A mensagem é "o que o Estado francês diz a nós não nos afecta". O mais preocupante é que o Estado francês é rigorosamente laico, não tem concordata com a Santa Sé desde que o Governo colaboracionista de Vichy foi varrido do mapa no pós-Guerra, nunca vi uma procissão nas ruas de Paris, nem missas ao domingo em nenhum canal de Televisão, nem programações "adequadas às quadras religiosas que atravessamos", como em Portugal.
Por exemplo, esta reivindicação tão portuguesa dos colégios católicos, que reivindicam o direito de custar mais ao Estado do que o ensino público, e andam de língua na boca com o Dr Portas e o Prof Cavaco numa cruzada, antigovernamental, em que vale tudo, de Norte a Sul, em França seria inconcebível. Nem o Le Pen é tão reaccionário!
Sou ferozmente tolerante, respeitador de todos os credos, e concepções de vida. Mas há um limite: que nenhuma religião pode colocar-se acima do Estado e usufruir de privilégios e benesses que os demais cidadãos não têm. Em França como em Portugal.
domingo, 22 de novembro de 2009
A mão de Henry e a honra da França
Não estou a brincar. A mão de Henry ─ que o árbitro não viu e deu o apuramento à França para a África do Sul ─ está a provocar um debate dramático, que caiu em voo rasante, como mosca na sopa, na grande questão da política francesa do momento: a preservação e o reforço da identidade nacional. La main de Thierry Henry et l’identité nationale! Como se vê.
Sarkozy ao proclamar o primado da identidade nacional francesa, lançou a primeira pedra, a bem dizer, deste debate. E vale a pena lembrar que o fez quando um grupo de energúmenos ─ jovens franceses, de origem magrebina ! ─ vaiou a Marselhesa num outro desafio de futebol, um França-Argélia, no Parque dos Príncipes, salvo erro, e não mais parou, até hoje. Que dá votos. E Sarkozy sabe tocar cordas sensíveis e chamar os bois pelos nomes. Como nos distúrbios das "banlieues" há dois anos quando "a canalha" incendiou milhares de carros durante dez dias.
A "a ideia da França", como dizia De Gaulle no seu tempo, é "virtude", é "coesão", é "grandeza" e o seu hino nacional, respeitado em todo o mundo, celebra valores que honram os franceses: a noção de justiça, uma vida partilhada de honestidade, exemplaridade, para o resto do mundo. É uma espécie de "França, ame-a ou deixe-a" e Martine Aubry, líder do PS francês, considera que é uma vergonha por parte de Sarkozy opor a identidade francesa à imigração.
Que é que isso tem a ver com a mão de Henry? Tudo é política. Foi jogo sujo e a lisura de procedimentos é, ou pretende-se que seja, uma marca identitária da França. Como se viu nas repetições, o jogador desvia com a mão a bola do alcance do guarda-redes, atirando-a para o pé, e centrando para Gallas, que faz o golo. Claro que é batota! Claro que é uma vergonha a França ser apurada desse jeito.
É um exagero dar-se importância nacional a um episódio de futebol? Sou dos que acham que o jogo devia ser repetido e que a Federação Francesa devia ter a coragem de aceitar a proposta da Irlanda, e do próprio Henry, envergonhado, cujo valor de mercado desceu em flecha com a batotice, e contrariar o treinador Domenech, o qual, segundo Cantona, é "o pior que a França teve desde Luis XVI". A comparação só prova que tudo é política, porque Luís XVI, a jogar futebol, só se foi com a própria cabeça depois do episódio da guilhotina.
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