─ "O arquitecto Gonçalo Ribeiro Teles é que não ia gostar nada disto"
Sucediam-se as ladeiras estreitas, a pique, e as curvas de meter medo. Deviam ser de sentido único, mas não eram, havia carros estacionados nas bermas, que obrigavam a perigosíssimas paragens e marchas atrás, para deixar passar quem vinha de frente. Ao lado viam-se as ribeiras emparedadas, em ziguezagues, sem o cuidado sequer de lhes arredondar os ângulos, o betão a invadir o leito dos rios.
Foi isso que me lembrou a tese de Ribeiro Teles, antiga e comprovada. As margens dos rios, com vegetação natural, a chamada mata ciliar, são uma espécie de esponja para as águas sujas que passam, funcionam como uma continuada estação tratamento, além de combaterem a erosão, tanto mais perigosa quanto maior o declive das águas que correm. As margens dos rios não gostam de ser aprisionadas pelo betão, um dia zangam-se, saltam para fora, levam tudo à frente, vingam-se.
Sim, sei que as catástrofes acontecem, não são culpa de ninguém. Não, não previ a tragédia, não sou cientista do ambiente.
Mas tenho bom senso. Alberto João Jardim vai ter agora ainda mais dinheiro para gastar. Alguém que o controle - precisa-se.
